“Meu bairro é bonito, mas perigoso”: redefinindo o conceito de bairro em contextos de violência criminal
Resumo
Este artigo analisa como crianças que vivem em um contexto de violência criminal em Ciudad Obregón, Sonora (México), constroem significados sobre seu bairro e desenvolvem interpretações situadas de perigo e segurança. Utilizando uma abordagem qualitativa, fundamentada no paradigma construtivista e empregando um desenho narrativo, a pesquisa coleta as vozes de doze crianças entre 10 e 13 anos por meio de oficinas participativas e entrevistas em profundidade realizadas em duas escolas de ensino fundamental localizadas em um bairro com alta incidência de violência. A análise temático-relacional das narrativas permitiu a identificação de padrões de significado ligados à experiência espacial da violência.
Os resultados mostram que o bairro é construído de forma ambivalente: simultaneamente como um espaço de afeto e pertencimento, e como um território atravessado por riscos associados à atividade criminosa. As crianças criam “cartografias infantis do medo”, entendidas como mapas simbólicos que delimitam zonas proibidas, rotas seguras e horários permitidos, guiando assim seus deslocamentos diários. Longe de demonstrarem dessensibilização à violência, suas narrativas revelam agência interpretativa, julgamentos éticos e estratégias de autoproteção que lhes permitem manter um senso de segurança em um ambiente instável. Da mesma forma, identificam-se desigualdades de gênero na regulação da mobilidade, que restringem mais intensamente a experiência espacial das meninas.
O estudo contribui para os estudos sociais da infância ao problematizar a violência como uma experiência situada, inscrita no espaço social, destacando a capacidade das crianças de criar significado para além de abordagens focadas exclusivamente na vulnerabilidade.
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