A cidade sob o signo de 'Afrodite Pandemos'
Resumo
A cidade é o lugar da humanidade. É a sua maior invenção. Com esse pensamento, medimos nossa evolução e replicamos os modelos mais eficazes em todo o mundo com uma precisão de domínio e cujas consequências foram descobertas como uma autópsia, na hora errada. Este texto foi escrito no período em que um coronavírus chamado SARS-CoV-2 violou as regras desse domínio. Primeiro, porque hoje quando tratamos de replicação e autópsia, termos ligados à biologia, elas deixaram de ser metáforas. Segundo, porque o confinamento feito para o controle da pandemia foi organizado nas próprias cidades, mostrando que elas não foram pensadas nem inventadas para enfrentar um inimigo como este. Terceiro, porque a proliferação de informações na quarentena serviu apenas para reivindicar as mesmas formas e modos de vida que já dominavam o planeta, com propostas de adaptação remediais e não integrais. Os vírus e as informações disputam um lugar privilegiado para se apropriarem dos corpos uns dos outros. Por meio de um registro meticuloso de leituras feitas durante o período de confinamento – um pouco mais relaxado nos dias de entrega deste artigo –, pretende-se demonstrar que ainda não temos consciência da oportunidade de redefinir os alinhamentos da Modernidade Tardia, se confiarmos na formulação de leituras contra-históricas, metáforas ainda, mas que desintegram nossas convicções mais paralisantes. É desde aí que aparecerá a cidade que está por chegar, para abrigar o que chamo de vida com valor. Essas metáforas contra-mitológicas nos remetem à reformulação de nossas origens, exemplificadas por um duplo contraste entre dois arquitetos e duas pinturas: Jean Prouvé e Rem Koolhaas, por um lado; a Forja de Vulcano, de Velázquez, e Santa Tecla rezando pelos atingidos pela peste, de Tiepolo, por outro. Para o primeiro arquiteto, fecharemos o processo de construção como o conhecemos e a forja será sua contra-mitologia. Para o segundo, Koolhaas, nos abriremos para um mundo exterior, onde a oportunidade da visão de nosso próprio confinamento mental deverá ser usada para questionamentos liberados de lógicas auto-impostas. Será a composição do esboço de Tiepolo pai que nos fará voltar ao seu encontro, para retornar com o impulso de Eros, uma figura que representa a aspiração revolucionária a um modo de vida e sociedade completamente diferentes. Conclui-se que o procedimento contra-mitológico é oportuno, embora seja difícil alcançar uma metamorfose planetária valente, de acordo com a pandemia que nos assola e que não trará grandes transformações sociais. Caso isso não ocorra, as mutações serão trágicas nas formas social, pública e espacial de nossas cidades, em curto prazo.
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