https://doi.org/10.5209/RIBE.108083; Recibido: 02/03/2026; Aceptado: 22/03/2026
Yasmin-Wink Finger; Universidade Federal de Pernambuco; yasmin.wink@ufpe.br; https://orcid.org/0000-0002-4505-514X
Experiencias profesionales; Revista de Investigación sobre Bibliotecas, Educación y Sociedad; e-ISSN: 3045-5685; Ediciones Complutense; Creative Commons CC BY 4.0
Resumo: As bibliotecas escolares adotam diferentes estratégias para formação de leitores, entre elas o clube do livro, que pode assumir formatos diferentes para cada realidade. Este trabalho tem como objetivo apresentar um relato de experiência sobre um Clube do Livro promovido pelos alunos e famílias da Escola Eleva, localizada na cidade do Recife, no Brasil. Trata-se de um relato de experiência de abordagem qualitativa. A iniciativa foi mobilizada por um estudante do 3º ano do Ensino Fundamental e sua família, que buscaram a biblioteca como um espaço para a realização dos encontros ao final do dia escolar. O clube segue uma metodologia estabelecida por meio de uma lista alfabética dos integrantes; mensalmente uma criança escolhe a obra que será lida por todos, e no dia, o aluno conduz a discussão a partir de perguntas previamente elaboradas para mobilizar o debate. Como resultado, a experiência consolidou-se na instituição, chegando ao seu terceiro ano com o mesmo grupo, culminando também na criação de outros dois clubes do livro com crianças do 2º ano. Evidencia a relevância de iniciativas que articulam o tripé aluno-escola-família no processo de formação de leitores. Esta experiência contribui para o campo da Biblioteconomia e da Ciência da Informação ao evidenciar o papel da mediação da leitura e da participação familiar na formação de leitores em contextos escolares.
Palavras-chave: Clube do livro; Biblioteca escolar; Formação de leitores; Escola Eleva Recife; Estudantes; Famílias.
Abstract: School libraries adopt different strategies to foster readers, among them the book club, which can take different formats according to each context. This paper aims to present an experience report about a Book Club promoted by students and families at Escola Eleva, located in the city of Recife, Brazil. This is an experience report with a qualitative approach. The initiative was launched by a 3rd-grade elementary school student and their family, who sought the library as a space to hold meetings at the end of the school day. The club follows a methodology established through an alphabetical list of members; each month, one child chooses the book to be read by everyone, and on the meeting day, the student leads the discussion based on previously prepared questions to stimulate debate. As a result, the experience became established within the institution, reaching its third year with the same group and also leading to the creation of two additional book clubs with 2nd-grade students. The experience highlights the importance of initiatives that connect the student–school–family triad in the process of developing readers. This experience contributes to the field of Library Science and Information Science by highlighting the role of reading mediation and family participation in the development of readers in school context.
Keywords: Book Club; School Library; Readers Formation; Eleva School Recife, Students; Families.
Sumário: 1. Introdução. 2. O lugar do clube do livro na formação de leitores na biblioteca escolar. 3. O Clube do Livro da Biblioteca Escola Eleva Recife. 4. Desdobramentos e possibilidades. 5. Considerações finais. 6. Contribuição de Autoria. 7. Referências.
Como citar: Finger, Yasmin-Wink. (2026). Uma biblioteca, uma criança leitora e uma família participativa: relato de experiência de um clube do livro em uma escola privada do Recife. Revista de Investigación sobre Bibliotecas, Educación y Sociedad, 3, e108083. https://doi.org/10.5209/RIBE.108083
Apesar da relevância dos clubes do livro como estratégia de formação de leitores, ainda são escassos estudos que analisem experiências mediadas pela participação ativa das famílias em bibliotecas escolares brasileiras. Nesse sentido, este trabalho busca contribuir para o aprofundamento dessa discussão, ao apresentar e analisar uma experiência concreta desenvolvida nesse contexto.
As bibliotecas escolares utilizam diferentes estratégias para formação de pessoas leitoras, entre elas destaca-se o clube do livro, que possui formatos específicos para cada realidade institucional. A Biblioteca da Escola Eleva Recife integra a instituição homônima, inaugurada em 2022, no estado de Pernambuco, no Brasil. A missão da escola “é formar uma nova geração de líderes capazes de fazer a diferença em suas vidas e de contribuir para um mundo melhor” (Escola Eleva, 2026).
O acervo da biblioteca possui mais de 5 mil títulos, atendendo toda a escola, desde o Infantil 1 (crianças a partir de 15 meses) ao Ensino Médio, além de familiares e funcionários. As crianças do Infantil 1 ao 5º ano do Ensino Fundamental (15 meses a 10 anos) frequentam a biblioteca toda semana para empréstimos de livros e participação em rodas de mediação de leitura literária conduzidas pela bibliotecária. Os estudantes do Ensino Médio que integram o currículo IB recebem apoio pela biblioteca na realização de suas atividades científicas exigidas pelo currículo.
Anualmente, a biblioteca promove o evento Library Week, recebendo pessoas autoras e mobilizando diversas ações voltadas à mobilização do incentivo à leitura literária na escola. Com uma média de 5.000 empréstimos por ano, a biblioteca busca mobilizar a comunidade escolar e consolidar-se como centro dos valores da escola: respeito, bondade, entusiasmo, excelência acadêmica e responsabilidade.
O protagonismo juvenil é incentivado na biblioteca, por meio de estudantes voluntárias e voluntários que auxiliam no empréstimo de livros e organização do espaço. Além disso, crianças realizam mediação de leitura para estudantes menores. É neste contexto que surge o clube do livro relatado neste trabalho, a partir da iniciativa de um estudante - aqui nomeado de José - e de sua mãe, que procuraram a biblioteca para mobilizar um clube do livro.
Este trabalho objetiva relatar a experiência de um clube do livro mobilizado por estudantes e suas famílias em uma biblioteca escolar em uma escola privada do Recife. Inicialmente, abordaremos conceitos fundamentais sobre biblioteca escolar, clube do livro e mediação de leitura. Em seguida, descreveremos a ação, apresentando as obras que foram lidas e alguns exemplos de atividades realizadas nos encontros. Por fim, descreveremos os desafios da realização da atividade e desdobramentos que seguem ocorrendo a cada ano.
As bibliotecas escolares são espaços de fortalecimento e incentivo à leitura, sobretudo a leitura literária, que “atrelada à Literatura, a leitura literária não deve cortar o sujeito leitor da vida real dele. Mas abrir caminhos para encarar esta, de outras maneiras” (Xypas, 2020, p. 12). Ao decidir entrar pelas portas da biblioteca, meninas e meninos decidem por um outro espaço, com “um tempo próprio, distante da agitação cotidiana, em que a fantasia tem livre curso e permite imaginar outras possibilidades” (Petit, 2013, p. 49). É este o lugar que se busca criar em uma biblioteca escolar, fortalecendo um ambiente em que as crianças possam ser elas mesmas e desenvolverem suas potencialidades.
Pessoas bibliotecárias investem seus dias na criação de estratégias de formação de leitores e uma delas, são os clubes do livro. Conforme Colomer (2007, p. 116) "ouvir, compartilhar e ajudar no esforço de ler textos que valham a pena são as novas coordenadas que presidem este século", portanto a leitura individual e silenciosa, segue como uma estratégia fundamental de compreensão, mas a leitura coletiva, o diálogo sobre o foi lido, o compartilhamento é “necessária para enriquecer a percepção sobre a obra lida” (Colomer, 2003, p. 129). Os clubes surgem deste lugar da leitura compartilhada.
Os clubes do livro não são uma invenção do nosso século, mas vivem desde a Grécia Antiga, passando pela luta das mulheres por direitos e sobrevivendo hoje em dia com as redes sociais e a internet. Petrich (2015) afirma que participar de um clube do livro torna a leitura mais interessante e estimulante, incentivando a leitura independente. A leitura independente é um incentivo primordial da biblioteca escolar, separando-se das leituras obrigatórias e apresentando uma gama de materiais possíveis para a leitura dos estudantes. Tão importante quanto ler, é compartilhar suas impressões sobre as leituras.
Ivey e Johnston (2013) identificaram efeitos positivos ao conceder aos estudantes maior controle sobre suas leituras e aprendizagens. Quando sentem que têm controle sobre o que estão lendo, elas tomam a ação para si e a mobilizam da maneira como desejam. O papel da pessoa adulta é encorajá-lo e garantir espaço suficiente para que se desenvolva. Ray (2019) aponta que os clubes do livro auxiliam estudantes a descobrirem gêneros de interesse, ampliando repertório. A possibilidade de ler livros diferentes a partir das indicações do clube do livro, obras que não seriam possíveis em outros momentos.
A participação das famílias também é um ponto a ser considerado como modificador do sucesso do clube do livro, sobretudo com estudantes mais novos. A National Library of New Zealand (2022) recomenda o envolvimento das pessoas responsáveis em decisões relacionadas à implementação de clubes do livro nas escolas. Além de ser uma experiência social para estudantes, ela também pode ser para as famílias, proporcionando momentos de leitura e diálogo em família.
As discussões em clubes do livro extrapolam os aspectos literários da narrativa, permitindo reflexões subjetivas. A literatura, quando inserida de dentro para fora, permite que possamos olhar quem somos através dos personagens. Labadie et al. (2012) ressaltam que as conversas de clube de leitura incluem análise de ilustrações, momentos de silêncio e reflexões. Os diálogos podem envolver tanto uma perspectiva mais cultural e histórica das obras, quanto experiências pessoais de conexão com vivências próprias.
O Clube do Livro teve início com o pedido de um estudante, aqui denominado Josué, que desejava organizar uma roda de leitura, semelhante à roda realizada pela biblioteca toda semana com a turma dele. A mãe de Josué o acompanhava, informando que mobilizou um grupo de mães da turma dele e que escolheram o livro A casa na árvore com 13 andares de Andy Griffith. O objetivo de Josué era de ter um momento com os seus amigos e amigas para falar sobre os livros que liam.
Previamente, a biblioteca já havia mobilizado diferentes clubes do livro, mas todos em horário escolar, com apenas 30 minutos. As dificuldades encontradas eram: mobilização dos alunos, a garantia da leitura da mesma obra e curto prazo para debates. Estes desafios não foram encontrados no clube do livro relatado aqui, devido à participação ativa das famílias.
O primeiro encontro ocorreu no dia 9 de maio de 2024, mediado pelo aluno Josué, que planejou uma lista de perguntas sobre a obra A casa da árvore com 13 andares, à época, Josué e seus colegas estavam no 3º ano do Ensino Fundamental. O grupo de estudantes foi modificando ao longo do tempo, girando em torno de 20 crianças, que hoje estão no 5º ano do Ensino Fundamental.
Trata-se de um relato de experiência de abordagem qualitativa, fundamentado na observação participante realizada pela equipe da biblioteca ao longo de 14 encontros do clube do livro, ocorridos entre os anos de 2024 e 2026. Os dados foram registrados por meio de anotações de campo, observação das interações entre os participantes e registros das atividades desenvolvidas nos encontros. A análise dos dados foi conduzida de forma interpretativa, buscando identificar padrões de participação, engajamento e práticas de mediação de leitura no contexto da biblioteca escolar.
A metodologia utilizada envolve uma listagem dos estudantes participantes em ordem alfabética, a cada mês um estudante (a partir da lista) é convocada a escolher uma obra para a leitura coletiva. Todas as pessoas do clube compram ou pegam emprestado na biblioteca a obra. Como o tempo é longo de leitura, algumas crianças conseguem terminá-lo cedo, mas nunca foi possível realizar um clube do livro em que todas as crianças leram o livro completamente. Isso deve-se à alguns fatores: os livros não agradam a todos e as crianças têm dificuldade de persistir em algo, mesmo não estando gostando; algumas crianças participam do clube do livro mais por um momento de interação social com colegas do que pelo gosto pela leitura.
De todo modo, a criança que escolhe o livro do mês tem um desafio: preparar uma lista de perguntas para a roda de conversa. No geral, o quiz de perguntas que os alunos preparam envolvem perguntas diretas como: “qual o nome dos personagens principais?” ou “o que aconteceu quando…?”. A partir do momento que foi observado que as perguntas não geram debates, a equipe da biblioteca buscou envolver-se como mediadora de leitura, assim foi preparado em cada encontro uma lista de perguntas diferente daquelas preparadas pelos estudantes, à luz das teorias da leitura subjetiva, “o modelo de leitura se fundamenta no acolhimento da subjetividade do sujeito leitor, a leitura subjetiva entra no ensino da literatura e dá voz ao leitor comum” (Xypas, 2020, p. 2). Portanto, mobilizou-se perguntas que direcionaram o olhar para dentro das crianças, o que gostavam, quem eram, o que não gostavam ou o que fariam em determinada situação.
Ao longo do tempo, a metodologia foi estruturando-se: em um primeiro momento dedicado à mediação do mês e um segundo momento à mediação de leitura. Como o clube ocorre após o dia de aula, identificou-se que os alunos não têm interesse na realização de atividades como a escrita de um diário, após a leitura da obra Querido diário otário, ou a escrita de uma história em quadrinho após os diálogos sobre O amuleto. Essas atividades foram rejeitadas pelos estudantes, devido ao cansaço e/ou desinteresse, portanto, decidiu-se em focar em perguntas envolvendo a leitura subjetiva promovendo discussões literárias.
Desde então, foram realizados mais 14 encontros, com as obras: A casa na árvore de 13 andares de Andy Griffiths, O menino, a toupeira, a raposa e o cavalo de Charlie Mackesy, A volta dos três porquinhos de Érico Veríssimo, O mistério da múmia, de Martin Widmark e Helena Willis, O menino maluquinho de Ziraldo, Os últimos jovens da Terra de Max Brallier, O Jardim Secreto de Frances Hodgson Burnett, Matilda de Roald Dahl, O amuleto 1 e 2 de Kazu Kibuishi, A hora das Olimpíadas de Mary Pope Osborne, Além da Ilha dos Perdidos de Melissa de la Cruz, Querido diário otário de Jim Benton e A terra dos meninos Pelados de Graciliano Ramos.
Estudantes apresentaram grande interesse pelas obras: O amuleto, A hora das olimpíadas, A casa na árvore, Matilda, Querido diário otário, O mistério da múmia e O menino maluquinho. Percebeu-se este interesse por conta do maior número de estudantes que finalizaram os livros, assim como a participação nas rodas de leitura. Isso se deve ao fato de serem obras que aproximam-se do leitor jovem, com uma linguagem acessível, personagens jovens e, sobretudo, um texto engraçado, tópico que as crianças consideram essencial. A obra Além da Ilha dos Perdidos obteve relutância de alguns estudantes, visto que consideraram uma obra “para meninas”, ponto que foi identificado pela pessoa mediadora de leitura, que buscou ampliar o debate sobre esses pontos, com dificuldade, visto que esses estudantes não leram a obra completa.
Enquanto mediadoras e mediadores de leitura, a equipe da biblioteca identificou potencial nas seguintes obras lidas: Matilda, O mistério da múmia, Querido diário otário, O amuleto, sobretudo a obra O Jardim Secreto. O livro Matilda, além de possuir um filme, o que contribui para o interesse do alunado, revela uma dinâmica muito familiar para crianças de 8 a 10 anos: o desenvolvimento da personalidade, os conflitos com adultos, as dinâmicas familiares e a chegada da adolescência. Apesar de ser um livro longo, com 252 páginas, grande parte dos estudantes leu e chegou no dia do clube do livro expressando revolta por algumas personagens que machucavam a tão amada e revolucionária protagonista. Nos diálogos do clube do livro foi possível ampliar as discussões sobre personagens do bem e do mal, sobre o papel dos adultos ao cuidar de uma criança, erros e acertos cometidos ao longo da vida, o que é considerado certo ou errado e também o lugar da literatura na saúde mental. Roald Dahl, autor do livro, é uma das figuras mais influentes da literatura juvenil no mundo, e a leitura de um de convoca para o encontro com o universo como um todo. A atmosfera criada pela família ajudou a promover a obra, com uma pequena e efetiva decoração que nos fez mergulhar na história de Matilda.
A obra O mistério da múmia integra a coleção Agência de Detetives Marco & Maia, com 6 publicações no Brasil, como O mistério na escola e O mistério na biblioteca. Sua leitura envolveu integralmente os estudantes, sobretudo pela temática de mistério que promove discussões sobre as motivações da pessoa autora do ato criminoso. Discutimos as pistas e lemos alguns trechos favoritos. O estudante fez uma apresentação de slides sobre o livro e ao final, se fantasiou de múmia para brincar com colegas. Essa ação mobilizou outros estudantes a lerem os demais livros da coleção.
Querido diário otário de Jim Benton também destaca-se por discutir temas que envolvem a idade dos estudantes, entre 8 e 10 anos, como bullying, adequação no ambiente escolar, relações com as famílias e amizades. Foi possível debater esses tópicos com os estudantes, sobretudo quando voltamos o olhar para a antagonista, uma menina tão presente no diário da protagonista. Em alguns momentos, sentia-se raiva da protagonista, Jamie, por odiar tanto Angeline, simplesmente por ela ser popular, loira e bonita.
Protagonistas questionáveis são muito interessantes para o público jovem, como Jamie em Querido diário otário e Mary Lennox em O Jardim Secreto. Deparar-se com os sentimentos de uma pessoa real, como ódio, nojo, inveja e vergonha, são interessantes para que possamos deslocar-se de uma ideia que esses sentimentos não devem existir em pessoas reais. A obra O Jardim Secreto pontua isso de maneira exemplar, trazendo ao longo da narrativa, um arco de redenção de Mary, que no início sente ódio por todo os estudantes, mas ao longo do tempo, a partir de seu contato com pessoas simples e boas, assim como a natureza, permitem que nossa protagonista veja a vida de maneira diferente.
Infelizmente, O Jardim Secreto não foi um livro que fez sucesso entre as crianças, sobretudo por ser uma obra longa e com uma linguagem mais complexa que os demais livros lidos. Como poucos estudantes estavam gostando do livro, algumas mães levantaram a hipótese de modificarmos a obra do mês, mas a mediadora da biblioteca buscou dialogar com as famílias sobre a importância da tentativa de leitura. Nem sempre vamos nos deparar com obras que gostamos de ler, mas é importante tentarmos e seguirmos com a leitura. Nem sempre uma obra nos mobiliza no início, pode ser na metade ou ao final, mas que possamos tentar desvendá-la como um mistério. No entanto, nenhuma criança gostou da obra. A mediação da biblioteca buscou, no dia do clube, debater os tópicos do livro, mesmo que as crianças não tenham lido completamente. Foi possível discutir sobre a aceitação de pessoas que aparentemente são difíceis, sobre a relação da Índia e Inglaterra no Século 20, as diferenças sociais de um universo com classes sociais tão distintas e também sobre o poder de encontrar algo que nos faça sentir bem, como Mary encontrou a natureza. De todo modo, foram debates relevantes.
Uma das obras mais populares entre os estudantes foi a coleção O amuleto de Kazu Kibuishi. A obra apresenta Emily, uma menina que, após a morte de seu pai, muda-se para uma antiga casa de família com a mãe e o irmão. Nesta casa, ela encontra um amuleto misterioso que revela poderes extraordinários. Emily e sua família encontram criaturas fantásticas e desafios perigosos, tornando a saga, com 7 livros publicados, uma obra de descoberta e transformação da infância para a juventude. A história em quadrinhos é um gênero que chama atenção de crianças de 8 a 10 anos, além disso, protagonistas com idades próximas e aventuras fantásticas torna o livro muito relevante. Mas além de ser uma obra que chama atenção dos estudantes, ela também revela-se com potencial para debates sobre família, responsabilidades, escolhas e poderes. Emily torna-se responsável pela sua família e precisa tomar decisões muito importantes muito cedo. Os monstros da obra podem ser vistos de maneiras mais complexas, como sentimentos e situações do cotidiano. Além disso, a perspectiva fantástica é ótima para que possamos transcender da rotina e da vida tradicional, para um mundo mágico.
A obra O menino, a toupeira, a raposa e o cavalo de Charlie Mackesy não apresenta necessariamente uma narrativa com início, meio e fim, e sim uma obra com frases potentes e profundas. Por este motivo, torna-se um livro interessante para conversar, mas com pequeno impacto narrativo. Por conta disso, as crianças puderam debater no clube sobre as frases, mas não adentraram em um universo literário em si.
Algumas desistências do clube do livro foram acontecendo ao longo do tempo, por diversos fatores: desinteresse por algumas obras escolhidas, gerada pela dificuldade em ler livros que não chamam atenção. Estudantes relatam que não passam da primeira página se a obra não os cativa. De um lado, é importante que a pessoa leitora consiga identificar um perfil de leitor que possui, por outro lado, a resistência em ler obras que fujam de seu gosto pessoal, não permitindo que expanda suas possibilidades enquanto leitora, permanecendo limitado nas mesmas leituras.
O papel da família para a realização do Clube do Livro da Escola Eleva Recife é um dos principais motivos de seu sucesso. A presença de responsáveis acompanhando as leituras de crianças de 8 a 10 anos de idade contribui para que elas não se percam no gosto da leitura, visto que é uma fase fundamental para a formação de leitores. Até a alfabetização, as famílias realizam leituras para as crianças, mas a partir do momento que elas tornam-se independentes, muitas vezes as famílias acreditam que não precisam mais ler junto com elas. Essa ausência pode desencadear um afastamento das crianças da leitura.
A escolha das obras é um tópico desafiador, visto que público adulto deseja que as crianças leiam determinadas obras com valor literário e social, como clássicos. Já as crianças, muitas vezes, desejam ler histórias engraçadas, leves e fáceis, como histórias em quadrinhos e diários. No Clube do Livro da Escola Eleva Recife, nota-se que, quando as famílias escolhem as obras, as crianças conectam-se menos com os livros, por isso é preciso um equilíbrio. Nos dias atuais, as obras juvenis vêm aperfeiçoando-se cada vez mais, com protagonistas jovens, temas atuais e que conectam-se com as vivências da idade, mas que com relevância literária e social. Obras como a Coleção Agência de Detetives Marco e Maia, Os detetives do prédio azul, obras de Roald Dahl, Diário de Pilar, A Casa na Árvore entre outros. Os clássicos devem sim ser inseridos nas listas de livros do Clube do Livro, portanto, criar uma lista que mescle obras clássicas e obras contemporâneas, obras que partem do desejo do público adulto e do desejo das crianças, é um desafio, mas que está no horizonte do Clube do Livro da Eleva Recife.
Os desdobramentos observados ao longo dos encontros indicam um fortalecimento do vínculo entre os estudantes e a biblioteca, evidenciado pelo aumento do sentimento de pertencimento, pela ampliação do repertório literário e pelo desenvolvimento da capacidade de argumentação nas discussões. Tais aspectos sugerem que o clube do livro atua não apenas como estratégia de incentivo à leitura, mas também como espaço de desenvolvimento socioemocional e comunicativo
A divulgação do Clube do Livro ocorre por boca a boca entre as famílias e os estudantes da escola. Crianças vêm e vão, mas o Clube permanece, as regras não são rígidas e a formação leitora é o objetivo principal. Ao longo dos 14 encontros realizados, observou-se uma participação cada vez mais ativa, com maior engajamento nas discussões e ampliação das trocas entre os participantes.
Em relação aos desafios, identifica-se a importância de estabelecer critérios para compreensão leitora dos estudantes, garantindo registro do que foi lido. Refletir sobre potenciais instrumentos que demarquem as leituras e contribuam para que os estudantes registrem enquanto lêem é uma estratégia para o futuro. Além disso, a garantia de que o Clube do Livro será mantido quando os estudantes chegarem ao Ensino Fundamental 2, no 6º ano, visto que é um período ainda mais desafiador para a leitura.
Por conta do sucesso do Clube, outros 2 Clubes do Livro estão sendo realizados na Escola Eleva Recife. Um deles mobilizado pela irmã de uma pessoa participante do primeiro Clube, que organizou colegas do 2º ano do Ensino Fundamental ano de 2025. Neste Clube, o estudantado já leu: Os últimos jovens da terra de Max Brallier, O amuleto 1 de Kazu Kibuishi, As aventuras de Mike de Gabriel Dearo e Manu Digilio, Pelé de María Isabel Sánchez Vegara da Coleção Gente pequena, Grandes sonhos, O Fantástico Senhor Raposo de Roald Dahl e Os detetives do prédio azul de Flávia Lins e Silva.
Neste Clube do Livro, as crianças têm em torno 6 a 8 anos, portanto, uma das ações realizadas é o RPG (Role Playing Game). A mediadora de leitura da biblioteca constrói o universo do RPG a partir do universo literário e os personagens jogam a partir dos personagens. Essa ação tornou-se uma atividade de muito interesse das crianças, que participam ativamente conforme a história mediada pela bibliotecária desenvolve-se. O RPG é uma ferramenta narrativa potente, que
Assumindo o papel do DM, o professor se coloca como um mediador em um jogo sociável como o RPG que se constitui e envolve diversos níveis de interação e relação entre os jogadores e personagens, Essa prática, por sua vez, possibilita trabalhar o desenvolvimento de habilidades já conhecidas (no seu NDR) e aquelas que possuem capacidade de aprender para que possam chegar em um desenvolvimento de suas competências futuras (NDP) de forma satisfatória e prática (de-Souza, 2025, p. 18).
Por conta da idade dos estudantes o RPG tornou-se uma metodologia muito utilizada no Clube do Livro, mas é claro, iniciando-se sempre com um diálogo sobre a obra, e assim como o primeiro Clube do Livro, a apresentação da obra e perguntas realizadas pelo estudante que escolheu o livro do mês. Em 2026, outro Clube do Livro vêm desenvolvendo-se, com estudantes que estão atualmente no 2º ano, mas ainda não houve nenhum encontro.
A descrição da experiência é rica, mas poderia ser complementada com maior nível de análise interpretativa, explicitando o que os resultados evidenciam em termos teóricos. Esses resultados evidenciam que o engajamento das crianças com a leitura está diretamente relacionado à identificação com as obras, especialmente quando estas apresentam linguagem acessível, humor e personagens próximos à sua realidade. Tal achado reforça as contribuições de Ivey e Johnston (2013), ao indicarem que a autonomia na escolha das leituras favorece o envolvimento dos estudantes no processo de aprendizagem.
O Clube do Livro é uma atividade com potencial educativo, social e terapêutico com objetivo principal de formação de leitores. As ações realizadas na Escola Eleva Recife destacam-se pelo protagonismo juvenil e a integração das famílias junto à biblioteca, destacando a tríade escola, família e estudantes como motor fundamental para a garantia da concretização dos objetivos que a escola têm, e que a formação de leitoras e leitores deve ser uma delas.
Em relação às obras escolhidas, destaca-se que os livros que promovem maior engajamento dos estudantes possuem as seguintes características: a possibilidade de escoamento (integrar uma coleção, sequência ou pertencer à um autoras e autores renomados com muitas obras similares), ter protagonistas com idade próxima dos estudantes e possuir humor. Esses 3 tópicos foram encontrados sobretudo nas obras lidas no Clube do Livro da Escola Eleva Recife: O mistério da múmia, Querido diário otário, O amuleto e Matilda. Essas obras mobilizam estudantes e possibilitam debates profundos sobre família, responsabilidades, bullying e amizade.
O Clube do Livro analisado neste estudo evidencia-se como uma estratégia potente de formação de leitores, ao integrar práticas de mediação da leitura com o protagonismo estudantil e o envolvimento das famílias. Do ponto de vista teórico, o estudo contribui para a compreensão das dinâmicas de mediação da leitura em bibliotecas escolares, destacando a importância da articulação entre escola, família e estudantes. No âmbito prático, reforça a relevância de iniciativas que promovam a participação ativa dos sujeitos no processo de leitura. Como limitação, destaca-se o caráter localizado da experiência, o que não permite generalizações amplas. Nesse sentido, sugere-se que estudos futuros investiguem outras experiências semelhantes, ampliando a compreensão sobre o impacto de clubes do livro na formação leitora em diferentes contextos educacionais.
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